Julgamento de Lula é terceiro ato do golpe, reafirma Dilma durante o Ato das Mulheres pela Democracia

O primeiro ato político desta terça-feira (23) que antecede o julgamento do ex-presidente Lula, em Porto Alegre, foi comandado na manhã, na Praça da Matriz, pelo Comitê de Mulheres Pela Democracia do RS. “O terceiro ato do golpe”, avisou Dilma Rousseff, é a perseguição implacável contra Lula, que não para de crescer na preferência popular e “se antes tinha que ser destruído, agora precisa ser aniquilado”. Ela referiu a fragilidade da acusação que recai sobre o ex-presidente e antecipou que qualquer que seja o resultado do julgamento, depois o Judiciário terá que resgatar sua confiança junto ao povo brasileiro, porque “numa democracia, uma área que não pode se tornar suspeita diante da população é a justiça”, assegurou.


A manifestação liderada pelas mulheres, denominada Eleição sem Lula é Fraude, estava prevista para o Auditório Dante Barone, da Assembleia Legislativa, mas a prolongada interrupção da energia elétrica levou o ato para a praça. Ali, depois da chuva, no mesmo espaço público em que Leonel Brizola, em 1961, comandou os 13 dias da Campanha da Legalidade, os coletivos femininos se acomodaram com tambores, danças e discursos. Durante três horas, deputadas, senadoras, sindicalistas, feministas, ex-ministras e ativistas sociais comandaram o ato político até a chegada de Dilma Rousseff. A concentração de mulheres e militantes fechou a rua Duque de Caxias, avançou pela frente do Palácio Farroupilha e ocupou a Praça da Matriz. Os tambores dos jovens da União da Juventude Socialista, UJS, e da União Brasileira de Mulheres, com a Marcha Mundial das Mulheres, definiram o ritmo das intervenções. A vice-presidente da CTB, Silvana Conti, coordenou a manifestação feminina.
Ao lado da presidente nacional do PT, senadora Gleise Hoffmann, a ex-presidenta Dilma Rousseff lamentou a ausência de luz que transferiu o ato para a praça, que passará como “testemunha da resistência democrática das mulheres”. Ela lembrou da história do Palácio Farroupilha durante a ditadura militar, como espaço democrático, e agora “como resistência ao golpe parlamentar e midiático”. O primeiro ato do golpe foi o impeachment, depois veio o enquadramento da economia, a redução dos gastos sociais e a geopolítica do país, “porque o Brasil não podia mais ter um modelo de crescimento com distribuição de renda, o país tinha que se enquadrar e reduzir o seu gasto social com o povo brasileiro”, disse.


Por isso, as primeiras medidas foram no sentido de reduzir os gastos sociais. Mas submeter medidas impopulares, como a reforma trabalhista, ao processo eleitoral, “jamais receberia aprovação”, o que também se aplica para a reforma da previdência. “Não se trata de uma reforma qualquer”, alertou, “acessar privadamente esses recursos vai levar a lucros exorbitantes no sistema financeiro”, o que leva a crer que se trata de privatizar a previdência nos moldes do Chile, Inglaterra e Estados Unidos. Essa foi a segunda etapa do golpe, afirmou, “nunca seria através de eleição direta” por exemplo, a venda da Petrobras, Eletrobras e disponibilizar as terras brasileiras como estão fazendo agora, submetido aos interesses de outros países.


E esta terceira etapa, diante do fracasso político do golpe – “por que qual é a liderança dos golpistas que sobreviverá ao escrutínio do voto popular” – questionou Dilma, para explicar a falta de candidatos no campo conservador, apesar de “invenções”, como o prefeito de São Paulo, João Doria, “transformados na sua real proporção nacional, nada”. Ou a busca entre televisivos, como faz a Rede Globo, confundindo o significado das políticas sociais para milhões de brasileiros, como o Mais Médicos, para 63 milhões de pessoas, ou o Bolsa Família, para 56 milhões, ou Minha Casa Minha Vida, para 26 milhões, em políticas sociais experimentais, direcionadas para 20 ou 40 pessoas. Portanto, “o golpe foi para me destruir, e ao PT, mas sobretudo para destruir Lula, esse era o projeto político do golpe”. Mas deu errado diante do crescimento de Lula na preferência de voto, com mais de 40%, e do reconhecimento do Partido dos Trabalhadores no país.


Como efeito secundário, observou Dilmar Rousseff, esse processo deu espaço para o surgimento da extrema-direita no país, como resultado de fatores próprios do país, como o fato de que o país saiu da escravidão de forma protocolar e se manteve o “privilégio com exclusão”, manifestado através da recusa social do outro. Quando o PT passou a ser acusado de estar transformando os aeroportos em rodoviárias, “estavam dizendo que “só nós” podemos ter acesso aos aeroportos. Referiu, ainda, os 37% de jovens formados nas universidades através das medidas de acesso igualitário, e que formaram o primeiro contingente familiar a ter acesso no terceiro nível do ensino.


Com Lula disparado na preferência do eleitorado, “quando seu potencial político passa a ser aquele que antes tinha que ser destruído, agora tem que ser aniquilado”, afirmou Rousseff, mostrando que os detalhes da acusação jurídica não se sustentam, e não há provas contra o ex-presidente. Mas ela ressaltou que depois do julgamento, o Judiciário terá que resgatar sua confiança junto à população, uma vez que “numa democracia, a justiça tem que ser isenta”. Enquanto Lula é perseguido, “outros com gravações e malas de dinheiro estão protegidos, podem concorrer e não estão submetidos à justiça”, afirmou. Confiante na inocência de Lula, Dilma disse que não existe plano B, “seria covardia”, reiterando que o ex-presidente ainda tem papel a cumprir na construção do país com distribuição das riquezas como educação de qualidade, acesso à propriedade e aposentadoria decente.


Nos discursos, se alternaram a presidente nacional do PT, senadora Gleise Hoffmann; as senadoras do PT Lídice da Mata e Fátima Bezerra; as deputadas federais do PT Margarida Salomão, Maria do Rosário e Benedita da Silva; deputadas federais Luciana Santos (PCdoB) e Alice Portugal (PCdoB), e Manuela d’Ávila (PCdoB); a ex-ministra da Secretaria de Políticas das Mulheres, Eleonora Menicucci; a presidente da UNE, Mariana Dias, e a ex-presidente, Carina Vitral; Vanja dos Santos, da UBM; Analu Faria, da Marcha Mundial das Mulheres; Zeca Rosado, do Católicas pelo Direito de Decidir; Ereni Melo, da CTB; Abigail Pereira (PCdoB); a sindicalista Neiva Lazarotto;  ngela Guimarães, presidente nacional da Unegro; e representações parlamentares da Argentina, Uruguai e Venezuela.

 

Texto: Francis Maia - MTB 5130

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